Sapatos portugueses atacam China

12/09/2013

O calçado português está na moda. A prová-lo estão os números das exportações que não param de crescer. Pelo terceiro ano consecutivo. Até julho, o sector vendeu para o exterior sapatos no valor de 1.028 milhões de euros, um acréscimo de 4,25% face ao período homólogo. E fê-lo sem reduzir preços. Bem pelo contrário. Só no último ano, e de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística, o preço médio subiu mais de 15% para 22,71 euros, o segundo mais caro do mundo. O lugar de topo no 'ranking' cabe à Itália.

E Portugal pode, agora, potenciar estes números com a China. Que este é um mercado de grande potencial, com os seus mais de 1,3 mil milhões de habitantes, já todos o sabíamos. Mas agora ficamos, também, a saber que a China valoriza muito bem o calçado que compra ao exterior. Na verdade, o preço médio do calçado importado pelo gigante asiático em 2012 foi de 30,24 dólares o par (cerca de 22,90 euros), o valor mais elevado do Top 15 dos importadores. Os dados são do World Footwear Yearbook , publicação estatística anual da responsabilidade da APICCAPS e cuja edição de 2013 será hoje apresentada publicamente na GDS, a feira de calçado que ontem arrancou em Dusseldorf, com a presença de 71 expositores portugueses.

O World Footwear Yearbook é um trabalho editada em parceria com a Messe Dusseldorf, responsável pela organização da GDS, e que este ano, pela primeira vez, será vendido, com um preço de capa de 250 euros.

Mas voltemos à China. Os dados do WFY mostram que o gigante asiático representa, ainda, uma fatia muito pequena das importações mundiais. A quota é de apenas 1,4%, mas corresponde às exportações totais, em volume, de uma Polónia ou de uma Roménia. E a 71% das exportações totais nacionais. Senão vejamos: a China importou 50 milhões de pares, em 2012, e pagou 1.522 milhões de dólares (1.153 milhões de euros), enquanto Portugal exportou 71 milhões de pares e ultrapassou, pela primeira vez, a fasquia dos 1.600 milhões de euros.

Não admira, por isso, que os empresários portugueses se mostrem cada vez mais interessados no mercado chinês. Dos três novos mercados que a Fly London conseguiu abrir mais recentemente, destaque para a Coreia do Sul e para a China onde, diz Fortunato Frederico, fundador e presidente da Kyaia, grupo que detém esta que é a marca de sapatos portuguesa mais conceituada no mundo, “a Fly está a entrar muito bem”. E, por isso, Fortunato Frederico não se mostra demasiado preocupado com o reforço da posição de liderança da China na produção mundial de calçado: produz 13.300 milhões dos 21 milhões de pares fabricados em todo o mundo. “Prefiro que se comprem sapatos baratos à China e se vendam caros para lá”, graceja, para logo de seguida sublinhar: “O que é importante é que o mercado funcione, de forma aberta e em igualdade de circunstâncias, porque aí são os mais aptos que vencerão”.

Luís Sá, da Jóia Calçado, também prefere encarar a China como uma oportunidade. Lembra o desenvolvimento do mercado chinês e a ascensão de uma classe média com crescente capacidade aquisitiva, e que tem tendência para procurar marcas europeias de elevado valor acrescentado. “Com a Itália a reduzir a sua produção, em termos de volume, Portugal está claramente na linha da frente para satisfazer essa procura crescente do mercado chinês”, acredita o empresário. Austrália, Canadá e EUA e a Rússia são algumas das mais recentes apostas da empresa, que detém a marca Cloud.

Já o porta-voz da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), Paulo Gonçalves, garante que a Ásia nunca foi uma ameaça para a indústria nacional porque “sempre assumimos que a nossa estratégia não passaria por competir com a China”. Os empresários, frisa, cedo perceberam que “nunca conseguiriam produzir mais barato do que a China e mesmo que, por absurdo, o conseguissem, haveria sempre quem acabaria por fazer mais barato”. A prova disso, diz, é que a própria China “começa já a ter problemas dentro de portas e procura alternativas mais baratas ao nível da mão de obra. Veja-se o caso dos chineses que estão a montar uma cidade do calçado na Etiópia, o que lhes permitirá baixar o custo de produção por minuto de 1,90 euros para 32 cêntimos”.

E para onde vão os sapatos 'made in Portugal'? É verdade que, a exemplo de outras indústrias, o calçado tem na UE o seu grande mercado de destino e onde coloca mais de 90% das vendas para o exterior. Mas, no total, os sapatos portugueses estão presentes em 132 países distintos espalhados pelos cinco continentes. A Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS) garante que os resultados da diversificação de mercados já se fazem notar, na medida em que que são as vendas em países extracomunitários que estão "a sustentar a atual trajetória de ascensão" do sector (cresceram 37% no primeiro semestre do ano).

China, Japão, Rússia, EUA, países árabes e da América Latina são as grandes prioridades, refere Paulo Gonçalves, porta-voz da associação. E mostra os números. No primeiro semestre, as exportações para a Rússia praticamente duplicaram (16 milhões de euros). A China vale já 1,5 milhões de euros (mais 73%) e os Emirados Árabes 2,5 milhões (um aumento de 280%).

Segundo o WFY, o maior importador mundial de calçado continuam a ser os EUA que, em 2012, asseguraram uma quota total de 22,6% por via dos 24.391 milhões de dólares pagos por 2.292 milhões de pares. O preço médio ficou-se pelos 10,64 dólares (oito euros). Portugal exportou para este país, no primeiro semestre do ano, 10 milhões de euros, mais 24% do que no período homólogo.

Em termos internacionais, e de acordo com o World Footwear Yearbook, que vai já na sua terceira edição, Portugal ocupa a 11ª posição no ranking dos maiores exportadores, lugar que temos mantido estável nos últimos anos. Mas temos ganho quota aos nossos mais diretos concorrentes, a Espanha e a Itália. Basta ver que continuamos a exportar mais, quer em quantidade quer em valor enquanto a Itália e a Espanha estão a exportar menos. Apesar disso, a Itália mantém o seu lugar como segundo maior exportador mundial, em valor, logo a seguir à China.  

 

Fonte: www.dinheirovivo.pt

 

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